Máximas do Sheikh Muhammad al-Madani

tradução de I.Borges e revisão de Jamal al-Murb

segunda-feira 13 de Dezembro de 2010, por Jamal al-Murb

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Hikam [máximas] é o plural irregular de hikma [1] , termo que designa, em árabe clássico, dois significados: de um lado, significa a mensagem em sentenças, expressa em um estilo conciso e expressivo. Hikma é todo enunciado que veicula um conteúdo de sabedoria, representado de uma maneira incisiva. A máxima se define também como um discurso edificante visando educar os espíritos graça à preciosidade do estilo e à consistência do conteúdo espiritual descrito. De outra parte, esse termo designa a sabedoria moral que caracteriza o hakim, homem sábio. É uma espécie de profundidade humana que dota quem a possua de uma visão abrangente, uma sólida experiência e integridade ética.

Os primeiros ascetas muçulmanos defendem o afastamento desse baixo-mundo e chamam a seguirem em direção à última morada. Os grandes mestres sufis exprimem seus pensamentos não somente pela poesia, mas também em sentenças curtas e intensas. As primeiras sentenças e provérbios remontam aos sufis de Bagdá e de Kufa. Provavelmente, por causa da abundância desses textos, Abū Hayyān al-Tawhīdī prometeu consagrar um volume inteiro às sentenças dos sufis de sua época [2] . Não podendo manter sua palavra, ele aspergiu seu Basā’ir wa-l-dahā’ir nesse gênero de máximas.

O autor mais conhecido que compôs uma obra desse tipo é Ibn ‘Atā’ Allāh de Alexandria (m. 709/1309), autor do al-Hikam al-‘atā’iyya [3] . Abū Madayn compôs também 170 máximas. O sheikh al-Alāwī fez do mesmo modo. Seus hikam foram comentados.

Sīdī Muhammad al-Madanī compôs, por sua vez, 101 máximas. Elas foram reunidas por três de seus discípulos: sidi Muhammad Taqtaq (m. 1987), sidi al-Tāhir ‘Abd al-Hādī (m. 2003) e sidi al-Mabrūk Ibn al-Hāğ (m. 2000). O próprio autor destaca em 1950 que ele havia pedido a seus três discípulos de recolher essas máximas em uma mesma obra.

 O Nome Supremo

Quem invoca o Nome Supremo (Allāh) torna presentes os Atributos de Perfeição de Allāh, que enviou Seus Mensageiros com a Orientação.

As Luzes da Unidade [divina] se derramam então sobre ele e o mergulham no Oceano da Magnificência única até que ele se extinga em tudo que não é Ele e que permaneça por Sua Luz e Seu Esplendor.

 A arte do Sufismo (tasawwuf)

Comparado aos outros ramos do saber, a arte do tasawwuf é um fruto benéfico. Seus depositários autênticos são astros luminosos. Suas almas são inspiradas por pensamentos refinados, inacessíveis mesmo aos intelectos mais penetrantes. Isso à exceção das pessoas a quem Allāh dá Sua Luz para caminhar nos jardins do Conhecimento, e asas para voar ao horizonte de sutilezas espirituais.

“Aquele a quem Allah não dá luz, não tem luz”. [4]

 Esperança

A própria essência da esperança é que o coração repouse sobre a Generosidade Daquele em que ele espera.

A esperança tem como virtude revestir o aspirante com o adorno da liberdade, do mesmo modo que o medo permanente [de Allah] o estimule a se qualificar para a escravidão. Graças a essas duas asas, o aspirante poderá voar no reino de Allah (que Ele seja exaltado).

  Estações espirituais

Os crentes comuns esperam a Generosidade de Allah e Seus benefícios.

A elite espera, quanto a ela, Sua proximidade e Sua beleza.

Os crentes comuns temem Seu terrível Castigo, enquanto que a elite teme ser cortada e velada d’Ele.

Que Allah nos preserve.

 Sinceridade

Quem se adornar com a virtude da sinceridade para com Allah e seu Mensageiro, seu Mestre e seus irmãos, assim como para com todos os crentes, Allah aumenta sua fé, sua segurança, sua força e sua estabilidade.

Muhammad, que Ele seja exaltado, diz: “de modo que Allah recompense os sinceros de sua sinceridade”. [5]

 Tapete da Realização

Os Guias Iniciáticos são os Cálices da Realização.

Beberão deles aqueles que se sentarem respeitosamente com eles no Tapete da Realização.

“Respeitar aquele que Allah declarou sagrado é, para vós, um bem próximo de vosso Senhor”.

 Coração Sadio

Na casa das pessoas de Allah, o coração sadio é aquele que não tenha sido inundado das formas dos seres manifestados, nem perturbado pelas alteridades ilusórias.

Ele é vazio daquilo que não seja Allah.

Nada lhe afasta d’Ele.

Ao contrário, tudo é para ele embaçado, evanescente.

 Início e Fim

O caminho do Tasawwuf tem um começo e um fim. Seu começo é apenas a observância das obrigações ritualísticas, a realização, na medida do possível, de atos além dos obrigatórios e o adorno com as nobres atitudes. Quanto a seu fim, é conhecer verdadeiramente Allah, exaltado seja, chegar a Sua Presença sagrada, deleitar-se com Sua Intimidade e abandonar o mundo dos sentidos. “E é ao teu Senhor que o é o resultado final” [6] .

 Discípulos

Seja qual for seu grupo ou área, os alunos não tiram nenhum proveito de sua ciência se não receberem um olhar de ternura de seu Mestre. Pior ainda, eles retornarão sobre seus passos.

 Olhar

O discípulo, pelo coração puro e submissão sincera com o Mestre, terá direito ao seu olhar afetuoso e à sua ternura espiritual.

O Mestre derramará sobre ele aquilo que Allah lhe deu. Ele então lhe encaminhará à Presença profética ou à Presença divina. Assim, ele se torna um dos servidores próximos de Allah. Tal é o objetivo esperado da companhia de um Mestre.


[1O termo hikma é corânico: Corão: II, v. 123/129, v.146, v.151; III, v.75/81 ; IV, v. 54/57 ; LIV, v.5 ; XLII, v. 63 ; XXXIII, v. 34 ; XXXVIII, v. 19, v. 20, etc. No pensamento árabe especulativo dos séculos IV a X, hikma é a purificação da alma graça aos princípios morais. Ibn Sina define hikma também: “A sabedoria é a passagem da alma do homem à perfeição possível por ele nos dois limites da ciência e da ação”, al-Burhān, p. 260, (extrato de Al-Šifā’), ed. A. Badawī, Cairo, 1954; A. M. Goichon, art. « Hikma », E. I. III, p. 389-390.

[2Al-Tawhīdī, al-Basā’ir wa-l-dahā’ir, I, p. 152.

[3G. Makdisi, art. Ibn ‘Atā’ Allāh, em EI², III, p. 745.

[4Corão, XXIV (A Luz) , v. 40 ; D. Masson, O Corão, II, p. 436.

[5Extrato de um hadit relatado por al-Bayhaqī.

[6O Corão LIII (A Estrela) v.42 ; D. Masson, O Corão, II, p.657.




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